
Sono profundo e sono REM: o que são e porque é que o número do seu relógio está provavelmente errado

Bruno Lopes
· atualizado a 2 de setembro de 2026
Resposta curta
O sono profundo faz manutenção física e concentra-se nas primeiras horas da noite. O sono REM trabalha memória e emoção e domina as últimas. Não existe um alvo validado de horas para cada — e os aparelhos de consumo erram muito a classificar as duas.
Acorda, ainda meio a dormir, e a primeira coisa que faz é abrir a aplicação. Sono profundo: 38 minutos. Ontem tinha sido 51.
Fica com uma sensação vaga de ter falhado a alguma coisa, sem saber bem a quê. E o dia começa com essa nota.
Vale a pena saber duas coisas antes de deixar aquele número decidir a sua manhã. A primeira é o que as fases do sono realmente fazem. A segunda é o quanto o seu aparelho sabe sobre elas — que é bastante menos do que parece.
Qual é a diferença entre sono profundo e sono REM?
O sono profundo é a fase de ondas lentas em que o corpo faz manutenção física e é difícil acordar a pessoa. O sono REM é a fase em que o cérebro fica muito ativo com o corpo praticamente imóvel, e em que ocorre a maior parte dos sonhos.
| Sono profundo | Sono REM | |
|---|---|---|
| Outro nome | Sono de ondas lentas | Rapid eye movement |
| O cérebro | Ondas lentas e sincronizadas | Muito ativo, quase como acordado |
| O corpo | Relaxado, ainda com tónus | Músculos temporariamente desligados |
| Trabalho principal | Manutenção física | Memória e carga emocional |
| Quando na noite | Primeiras horas | Últimas horas, antes de acordar |
| Acordar alguém | Muito difícil | Relativamente fácil |
| Sonhos | Raros e pouco narrativos | A maior parte dos que se recordam |
O que é o sono profundo, e para que serve
O sono profundo, ou sono de ondas lentas, é a fase em que é mais difícil acordar alguém. Se já acordou uma pessoa nesta fase e ela levou meio minuto a perceber onde estava, viu o efeito de fora.
O sono profundo é a fase de manutenção física do corpo. É durante o sono de ondas lentas que acontece o pico mais fiável de hormona de crescimento do dia: segundo uma revisão publicada em 1996, cerca de 70% dos picos noturnos de hormona de crescimento coincidem com esta fase, e a quantidade libertada acompanha a quantidade de sono profundo que houve.
Para quem treina, é este o mecanismo por trás da frase que já ouviu: o músculo não cresce no ginásio. O treino faz o pedido. O sono profundo é onde o pedido é executado.
O que é o sono REM
REM significa rapid eye movement, movimento rápido dos olhos — o sinal mais visível de fora.
Por dentro, o sono REM funciona quase ao contrário do sono profundo: o cérebro fica muito ativo e o corpo fica praticamente imóvel, com os músculos temporariamente desligados. Um corpo parado a servir uma cabeça a trabalhar.
O sono REM é a fase em que ocorre a maior parte dos sonhos que se recordam, e a que está associada ao trabalho sobre a memória e sobre a carga emocional do dia anterior.
Como as fases se distribuem pela noite
As duas fases alternam em ciclos ao longo da noite, mas não estão distribuídas por igual.
- O sono profundo concentra-se nas primeiras horas depois de adormecer.
- O sono REM vai ganhando espaço à medida que a noite avança, e domina as últimas horas, já perto de acordar.
No lado esquerdo do desenho, os blocos de sono profundo são largos até por volta das duas da manhã e depois desaparecem por completo. No lado direito, os períodos de REM começam curtos e vão ficando cada vez mais longos até ao momento de acordar.
Desta distribuição saem duas consequências práticas que valem mais do que qualquer gráfico de aplicação:
- Deitar-se duas horas mais tarde do que o costume corta sobretudo sono profundo.
- Acordar duas horas mais cedo do que o costume corta sobretudo sono REM.
As duas perdas não são a mesma coisa. Uma tira-lhe o corpo; a outra tira-lhe a paciência. É por isso que uma noite curta pelo início e uma noite curta pelo fim dão dias maus com sabores diferentes — e é por isso que «dormi seis horas» não descreve nada sem dizer quais seis.
Quantas horas de sono profundo são o ideal?
Esta é das pesquisas mais feitas sobre o tema, e a resposta honesta desilude: não existe um alvo validado de horas de sono profundo.
Três razões, por ordem de importância.
Primeira: varia enormemente com a idade. A maior meta-análise de valores normativos, publicada em 2004, reuniu 65 estudos e 3 577 pessoas saudáveis dos 5 aos 102 anos — precisamente porque a arquitetura do sono muda ao longo da vida. O sono profundo diminui com a idade de forma marcada. Um valor «baixo» aos 55 anos pode ser exatamente o esperado aos 55 anos.
Segunda: varia com a noite anterior. O sono profundo é, em parte, uma resposta à pressão de sono acumulada. Depois de uma noite curta, o corpo tende a recuperar mais ondas lentas na noite seguinte. Comparar terça com quarta sem saber o que aconteceu na segunda não informa nada.
Terceira, e a mais incómoda: o número que está a comparar provavelmente não é aquilo que pensa que é.
O número do seu relógio está provavelmente errado
Em 2021, investigadores puseram 34 adultos a dormir em laboratório durante três noites consecutivas, com polissonografia — o método de referência, com elétrodos — a correr ao mesmo tempo que sete aparelhos de consumo, entre relógios e dispositivos de cabeceira.
A distinguir sono de vigília, os aparelhos até se saem razoavelmente bem. O problema aparece na classificação das fases.
Num estudo de 2021 com polissonografia, a maioria dos aparelhos de consumo falhou entre 30% e 50% do sono profundo e do sono REM. O gráfico da manhã seguinte é mais confiante do que a medição que lhe deu origem.
Alguns dos sete aparelhos sobrestimavam sistematicamente o sono profundo em dezenas de minutos por noite. Outros subestimavam o REM na mesma ordem de grandeza. E a variação de noite para noite era grande o suficiente para que valores certos em média estivessem errados em qualquer noite concreta — que é sempre a noite que nos interessa.
A razão da falha é simples de perceber. A polissonografia lê atividade elétrica do cérebro. Um relógio no pulso lê movimento e batimento cardíaco, e infere o resto. É uma inferência inteligente. Não é uma medição.
Nada disto torna estes aparelhos inúteis. Torna-os úteis para tendências e horários — a que horas se deitou, quanto tempo esteve na cama, o quanto isso varia ao longo de um mês — e pouco fiáveis para o valor de uma fase numa noite específica.
Que é, precisamente, o número em que toda a gente se fixa. E fixar-se nele tem consequências.
Ortossonia: quando o número passa a ser o problema
A ortossonia é a preocupação excessiva com os dados de sono de um aparelho, ao ponto de essa preocupação piorar o próprio sono. O termo foi proposto numa série de casos clínicos publicada em 2017.
Esses casos descrevem pessoas que procuraram consulta por sono perturbado, cujo sono era objetivamente razoável, e cuja perturbação estava a ser mantida pela perseguição dos valores do aparelho.
O mecanismo da ortossonia é o previsível, e é cruel na sua simplicidade. A pessoa lê que dormiu mal. Esforça-se por dormir melhor na noite seguinte. E o esforço para dormir é uma das poucas coisas que garantidamente impedem de dormir.
O aparelho comprado para melhorar o sono passou a ser a causa do problema.
Para quem reconhece este padrão em si, a intervenção mais eficaz é aborrecida: desligar a monitorização de fases durante duas ou três semanas e voltar a julgar as manhãs pela forma como se sente. Que é, afinal, o dado que sempre interessou.
O que realmente protege as duas fases
Não há um botão para uma fase isolada. Há isto:
Dormir o suficiente. O sono profundo concentra-se no início da noite e o REM no fim, por isso uma noite cortada em qualquer das pontas custa-lhe uma delas. O total certo para si descobre-se em duas semanas e sem aplicações, com o método que está aqui.
Deitar-se e levantar-se a horas regulares. É a variável com melhor evidência de todo o site: num estudo de 2024 com 60 977 pessoas, a regularidade do horário previu a mortalidade melhor do que a duração do sono. É também a que mais protege a estrutura da noite — uma noite que começa sempre à mesma hora tem sempre as mesmas fases nos mesmos sítios. É a primeira peça da higiene do sono.
Desconfiar de qualquer coisa que prometa aumentar seletivamente o sono profundo. É a promessa mais vendida do setor e a menos sustentada. Neste site não se escreve sobre substâncias, mas a regra vale para tudo: se um produto promete mexer numa fase específica, a pergunta a fazer é qual foi o estudo, com quantas pessoas, e medido como.
Por onde começar
Quem veio aqui por causa de um número na aplicação não deve começar por otimizar esse número.
O primeiro passo é perceber se o total e o horário estão em ordem — quantas horas de sono precisa por noite — e, se estiverem, ir procurar a causa a dormir oito horas e acordar cansado.
E se o cansaço durante o dia é persistente ou perigoso, isso é para o médico de família, não para um gráfico. Em caso de dúvida sobre saúde, em Portugal a Linha SNS 24 atende no 808 24 24 24.
Perguntas frequentes
Qual é a diferença entre sono profundo e sono REM?
O sono profundo é a fase de ondas lentas, em que o corpo está em manutenção física e é difícil acordar a pessoa. O sono REM é a fase em que o cérebro fica muito ativo com o corpo praticamente imóvel, é quando ocorre a maior parte dos sonhos, e está ligada ao processamento de memória e emoção. São fases distintas e alternam ao longo da noite.
Quantas horas de sono profundo devemos ter por noite?
Não existe um alvo validado de horas de sono profundo. A quantidade varia muitíssimo com a idade — diminui ao longo da vida adulta — e também com o quanto se dormiu nas noites anteriores. A maior meta-análise de valores normativos reuniu 65 estudos e 3 577 pessoas entre os 5 e os 102 anos justamente porque a variação é grande demais para um número único.
O meu relógio diz que tenho pouco sono profundo. Devo preocupar-me?
Provavelmente não, porque o número tem pouca fiabilidade. Num estudo de 2021 que comparou sete aparelhos de consumo com polissonografia em laboratório, a maioria falhou entre 30% e 50% do sono profundo e do sono REM. Os aparelhos são razoáveis a distinguir sono de vigília; a classificação por fases é a parte fraca.
Como aumentar o sono profundo?
Não existe um interruptor para uma fase em particular. O sono profundo concentra-se nas primeiras horas da noite, por isso o que mais o protege é deitar-se a horas regulares e dormir o suficiente para que essas primeiras horas aconteçam todas as noites. Qualquer promessa de aumentar seletivamente o sono profundo merece desconfiança.
O que é a ortossonia?
A ortossonia é a preocupação excessiva com os dados de sono de um aparelho, ao ponto de essa preocupação piorar o próprio sono. O termo foi proposto numa série de casos clínicos publicada em 2017, que descreve pessoas com sono objetivamente razoável cuja perturbação era mantida pela perseguição dos valores do dispositivo.
Deitar-me mais tarde tira-me sono profundo ou sono REM?
Sobretudo sono profundo, porque essa fase se concentra no início da noite. Ao contrário, acordar mais cedo do que o habitual corta sobretudo sono REM, que domina as últimas horas antes de acordar. São perdas diferentes e dão dias maus diferentes.
Fontes
Ligações para as fontes primárias, não para artigos sobre elas.
- Van Cauter & Plat, Physiology of growth hormone secretion during sleep, The Journal of Pediatrics, 1996 — revisão; cerca de 70% dos picos noturnos de hormona de crescimento coincidem com sono de ondas lentas
- Ohayon et al., Meta-Analysis of Quantitative Sleep Parameters From Childhood to Old Age in Healthy Individuals, SLEEP, 2004 — 65 estudos e 3 577 pessoas dos 5 aos 102 anos; mostra o quanto a arquitetura do sono muda com a idade
- Chinoy et al., Performance of seven consumer sleep-tracking devices compared with polysomnography, SLEEP, 2021 — 34 adultos em laboratório; a maioria dos aparelhos falhou 30% a 50% do sono profundo e do REM
- Baron et al., Orthosomnia: Are Some Patients Taking the Quantified Self Too Far?, Journal of Clinical Sleep Medicine, 2017 — série de casos clínicos de pessoas cujo sono piorou por perseguirem os números do aparelho
- Windred et al., Sleep regularity is a stronger predictor of mortality risk than sleep duration, SLEEP, 2024 — 60 977 pessoas; a regularidade do horário previu melhor do que a duração

Bruno Lopes
Designer e programador. Não sou médico.
Quando acordava a meio da noite, fumava um cigarro. Achava que me acalmava. Não me acalmava. Depois pegava no telemóvel — e essa, provavelmente, também já fez. Construo sites para viver e durmo mal há anos; quando fui procurar melhor, encontrei páginas paradas há uma década e publicidade a comprimidos. Por isso fui às fontes primárias e comecei a testar em mim, uma variável de cada vez. Não sou médico e não vendo nada que se tome.
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